IESS faz estudo sobre impacto das novas tecnologias nos custos da saúde
Ter, 06 de Julho de 2010 14:01
A incorporação de tecnologias, associada às novas técnicas e ao maior desenvolvimento de habilidades por parte dos cirurgiões, tem trazido mudanças na forma de abordagem e tratamento de determinadas patologias. Estas novas tecnologias oferecem vantagens flagrantes na qualidade de vida do paciente, mas também custam mais.
Para entender melhor os impactos nos custos, o IESS – Instituto de Estudos de Saúde Suplementar - preparou um estudo que analisou o peso da tecnologia nos custos e nos resultados do tratamento das colelitíases sintomáticas (vesícula biliar).
Os dois procedimentos mais utilizados no Brasil para o tratamento desta doença são a colecistectomia convencional, ou a cirurgia tradicional, em que é feito o corte no abdome do paciente, e a colecistectomia feita através de videolaparoscopia, realizada por meio de 2 a 3 incisões na barriga para a inserção da câmera e dos instrumentos. O resultado do estudo mostrou que, se por um lado existe uma melhoria na qualidade de vida do paciente que se submete a cirurgia por videolaparoscopia, por outro, o custo nesta cirurgia aumenta em cerca de 32%.
As doenças biliares:
As doenças biliares têm um índice alto na população em geral, mas, especificamente no Brasil, a colelitíase é a doença cirúrgica abdominal mais comum nos idosos. Já nos Estados Unidos, cerca de 25 milhões de americanos são portadores de cálculos biliares e 1 milhão de pessoas é diagnosticada por ano. Estudo na Inglaterra analisou necropsias e atestados de óbitos e descobriu presença de cálculos em 17,1% dos casos, sendo que em apenas 0,26% deles, os mesmos foram identificados como causa mortis. Ou seja, nos demais casos, ou os pacientes não tiveram conhecimento dos cálculos ou estes não causaram maiores danos.
Tratamento:
Existem três tipos de colecistectomia – convencional, videolaparoscopia e mini colecistectomia. No Brasil, são utilizados os dois primeiros. O método convencional foi utilizado como padrão durante cem anos, até a entrada da videolaparoscopia em 1987. Paralelo ao desenvolvimento de novas técnicas cirúrgicas, a evolução dos instrumentais, dos equipamentos e treinamento dos cirurgiões têm modificado as abordagens cirúrgicas numa velocidade espantosa.
As operações de colecistectomia realizadas pelo SUS aumentaram de 2,4% para 4,5%, do total de internações, entre 1993 e 2007. Nesses quatorze anos, as internações por esse processo em geral sofreram crescimento acelerado, aumentando mais de 176%.Como não há evidência de crescimento da incidência da doença entre a população, o considerável crescimento na quantidade de internações no SUS para tratamento cirúrgico deve ser explicada por outros fatores. Notou-se que o procedimento colecistectomia convencional cresceu mais do que a videolaparoscopia, possivelmente pela desigualdade regional na distribuição de equipamentos e ofertas de serviços relacionados ao procedimento. A maioria dos municípios não dispõe de tecnologia nem de profissional habilitado para este tipo de cirurgia.
No SUS, a videolaparoscopia cresceu, no entanto, nas regiões metropolitanas, em especial em Porto Alegre, onde o procedimento chegou a atingir 50% do total das cirurgias de vesículas, seguida por São Luiz e Rio de Janeiro, ambas com 40% do total.
No sistema privado de saúde, em uma operadora analisada, a população de beneficiários que fizeram a colecistectomia convencional não apresentou crescimento, em dez anos. Neste caso houve o predomínio absoluto da videolaparoscopia, com 90% dos procedimentos.
Vantagens e desvantagens da utilização da tecnologia:
Na análise realizada por diversos estudos, não houve diferença significativa nos índices de mortalidade dos dois procedimentos: a colecistectomia convencional e a feita através de videolaparoscopia, ambas na faixa de 0,5%. Entretanto houve menor incidência de complicações no grupo de videolaparoscopia, quando comparado ao tradicional, além de menor tempo de hospitalização e de convalescença.
A qualidade de vida após o tratamento do paciente que opta por videolaparoscopia também é bem melhor, com menos dores corporais e melhor desempenho emocional e físico.
Custos do tratamento:
A melhora na qualidade de vida no pós tratamento da colelitíase sintomática através da cirurgia por videolaparoscopia tem um custo. Para entender seu impacto, o estudo comparou os dois tipos de procedimentos: cirurgia por videolaparoscopia e cirurgia tradicional. Foram analisados os custos de material (descartável ou não), pessoal e internação.
A conclusão é de que as diferenças no custo total dos procedimentos decorrem, principalmente, do uso de materiais especiais, principalmente os descartáveis, na videolaparoscopia e, em menor grau, pelo maior valor dos honorários médicos neste procedimento. Em contrapartida, como o tempo de internação é menor, há uma diminuição de diárias hospitalares em comparação com a cirurgia tradicional.
O estudo concluiu que há uma diferença de 32% no custo entre a videolaparoscopia e a cirurgia tradicional, quando se comparam apenas os custos diretos dos procedimentos. Apesar disso, vários estudos demonstram que os custos dos dois procedimentos se equiparam ou até se invertem quando são considerados os custos indiretos, como o tempo de recuperação e retomada das atividades, ficando a cirurgia por videolaparoscopia com custos menores que a convencional.
| Elementos | Fonte | Colecistectomia por videolaparoscopia | Colecistectomia Convencional |
| Custo direto do tratamento | Este estudo (Cenário 1) | 3512,52 | 2658,31 |
| (=) Diferença no custo direto de tratamento | Este estudo (Cenário 1) | R$ 854,21 - 32% | |
| Complicações em seu tratamento | Literatura | Menor | Maior |
| Benefícios para o paciente | |||
| Taxa de Mortalidade | Literatura | Sem diferenças significativas | Sem diferenças significativas |
| Tempo de recuperação do paciente | Literatura | Menor | Maior |
| Dor pós operatória | Literatura | Menor | Maior |
| Qualidade de vida do paciente durante e pós tratamento | Literatura | Melhor | Pior |
| Expectativa de vida do paciente pós tratamento | Literatura | Não há referências | Não há referências |
| Tempo total de interrupção de atividades | Literatura | Máximo de 26,9 e mínimo de 13,2 dias | Máximo de 50,4 e mínimo de 39,9 dias |
Uma solução para minimizar a questão do custo e, ao mesmo tempo, oferecer melhor qualidade de vida ao paciente, talvez seja a mini-colecistectomia, variante da colecistectomia convencional, com técnica minimamente invasiva, e incisão cirúrgica pequena, de 4 a 7 cm. Este procedimento é muito utilizado em países da Europa, e, segundo estudos, com resultados equivalentes à videolaparoscopia, mas com custos menores. Não foram constatados, nos estudos, diferenças nas taxas de mortalidade nos dois procedimentos estudados; mas o tempo de hospitalização e o tempo de recuperação são significantemente menores. Também não há diferenças significativas nas taxas de complicação, cujos índices veem diminuindo com o maior treinamento dos cirurgiões.


